01 Apr
Por: Eduardo Beltrame em: Artigo, Comportamento, Engenharia
Artigo publicado na seção Três Minutos no site do engenheiro Ênio Padilha. Como diz ele, a culpa deste descrédito da arquitetura e principalmente da engenharia é culpa nossa, dos profissionais que não nos valorizamos e também não sabemos cobrar atitudes dos conselhos e associações. Precisamos acordar e nos unir para assim sermos mais valorizados pela sociedade.
O QUE É QUE A ENGENHARIA E A ARQUITETURA TÊM A VER COM ISSO?
O governo federal lançou nesta semana um plano para construir um milhão de residências para famílias com renda entre um e dez salários mínimos.
É um plano ambicioso. O ministro falou em 60 bilhões de reais injetados na economia. Parece um projeto animador para a economia.
Mas ontem eu ouvi um engenheiro dizer que “isso aí não vai mudar nada para a engenharia”, pois as obras são pequenas e acabarão sendo feitas por mestres de obra, com a consultoria de balconistas das lojas de material de construção.
Projetos, se houver, serão daquele tipo: feitos por ghost designers e assinados por caneteiros de plantão. Muitos engenheiros e arquitetos olham pra isso tudo com desdém, como a dizer “isso daí não é engenharia!”, “não se aplica à arquitetura”
Como não? Que pensamento pequeno! Que visão curta!
É por conta desse tipo de ponto-de-vista que os serviços de Engenharia e de Arquitetura são tão mal recebidos em certos mercados.
Infelizmente muitos engenheiros e arquitetos acreditam que obras menores não se beneficiam da Engenharia e da Arquitetura. Trata-se de um erro conceitual. Um problema de visão reduzida.
Tomemos uma pessoa (um potencial cliente) que disponha de R$ 100.000,00 para construir uma residência. Ela tem dois caminhos a seguir: o caminho “A” e o caminho “B”.
Comecemos pelo caminho “B” que, por ser o mais torto e o mais incorreto, é também o mais popular.
Essa pessoa faz, ela mesma, um desenho da planta da casa. Ou, então, pede para alguém fazer pra ela. É aí que entra o tal do ghost designer: geralmente um desenhista que fez um cursinho no básico, ou nem isso. Com o tal desenho, procura-se um acobertador – nome dado ao profissional de engenharia ou arquitetura que empresta seu nome e seu título profissional para tornar legal um trabalho feito por terceiros, também chamado de “assinador de planta” ou simplesmente “caneteiro”. Com esse caminho tem-se um “investimento” de, digamos, R$ 1.000,00 em “engenharia” e “arquitetura”.
A planta, devidamente assinada por esse profissional ordinário, é aprovada pela prefeitura. Inicia-se a obra, que vai ser feita exatamente de acordo com a vontade do proprietário e os conhecimentos do pedreiro, com a consultoria dos vizinhos e dos balconistas das lojas de material de construção.
Essa maneira de gastar o dinheiro resulta em uma obra com, digamos 90 ou 100 m2, trêsquartos, sala, cozinha, banheiro, área de serviço, garagem, que custa R$ 100.000,00.
Se o terreno vale uns 30 mil, o patrimônio resultante valerá, se posto à venda, R$ 130.000,00.
Vamos ver, então, o caminho “A”, que começa pela contratação de um arquiteto, que irá fazer um projeto ajustado à realidade do cliente, otimizando espaços, garantindo uma boa ventilação, observan-do a posição do sol, explorando recursos estéticos como janelas, telhados e varandas. Depois, deve seguir-se a contratação de um engenheiro, que fará os projetos complementares (estrutural, hidro-sanitário, elétrico). Fará o dimensionamento correto dos materiais a serem utilizados, além de organizar a obra, promovendo racionalização e economia. Muita economia.
O custo de um arquiteto + um engenheiro é, digamos, R$ 5.000,00. Com os R$ 95.000,00 restantes, por este caminho “A”, teremos, como resultado, uma obra que custará os mesmos R$ 100.000,00. Porém, essa casa, com os recursos da arquitetura e da engenharia, terá os 90 ou 100 m2 muito melhor aproveitados, do que os da casa do “plano B”. Talvez até uns 110 m2.
E, além dos três quartos, sala, cozinha, banheiro, área de serviço e garagem, poderá ter, por exemplo, uma vaga a mais na garagem, uma churrasqueira, uma varanda, um telhado mais bonito… Se for construída no mesmo terreno de 30 mil, esse patrimônio resultante valerá – aí é que vem a surpresa –, pelo menos, uns R$ 150.000,00.
Exagero? Não! Os números estão corretos. E as provas estão por aí nos bairros, nos loteamentos e nas planilhas de custos…
É verdade: com Engenharia e Arquitetura a obra custa menos e vale mais!
Por que, então, se é tão simples assim, a maioria das pessoas faz a coisa do jeito errado? Por que as pessoas preferem a equação desenhista + pedreiro = obra + cara e sem valor agregado e não a equação engenharia + arquitetura = obra barata e mais valiosa?
Por três razões: primeira: nem tudo o que é óbvio é ululante! A maneira certa quase sempre é a maneira mais difícil de ser entendida e acolhida.
Segunda, porque essa escolha exige visão de médio e longo prazo e a maioria dos clientes dessa faixa de renda só consegue enxergar até o fim do mês. Cabe ao profissional ajudá-lo a ampliar esse horizonte.
A terceira razão (esta sim, importante) é a seguinte: “Os serviços de engenharia e de arquitetura encabeçam a lista dos produtos mais mal vendidos do Brasil”. As relações de mercado entre arquitetos/engenheiros e os seus clientes constituem uma “torre de babel” em que os profissionais querem vender coisas que os clientes não sabem que precisam, e os clientes precisam de coisas que os profissionais não consideram importantes e, portanto, não disponibilizam.
Nosso discurso de mercado é desorganizado e inútil. Temos de aprender a insistir na tecla de que Engenharia e Arquitetura não tornam a obra mais cara. Tornam a obra mais valiosa.
Porque não custa mais caro colocar a casa num lugar melhor do terreno, melhorando a circulação externa, aumentando a segurança e valorizando o patrimônio resultante; Não custa mais caro fazer a casa mais bonita, com janelas e portas localizadas de forma harmoniosa e elegante; Não custa mais caro posicionar a casa de tal maneira que o sol alcance os quartos pela manhã e que a circulação do vento seja mais agradável
Não custa mais caro (pelo contrário, custa até mais barato) não exagerar nas fundações da casa por falta de cálculos que garanta a segurança da construção e a economia do dinheiro do proprietário.
Em resumo: não custa mais caro aplicar Arquitetura e Engenharia na construção de uma casa, por menor que ela seja.
Este plano do governo federal de construir um milhão de residências é uma grande oportunidade de a Engenharia e a Arquitetura fazer o país mudar seus conceitos
Entidades de classe precisam se mobilizar. Os Creas precisam encontrar os caminhos para se integrar nessa operação (que já está em curso). O Confea deve promover audiências públicas em todo o país, para fomentar essa discussão.
Isso tudo é URGENTE!
Temos mais do que uma oportunidade. Temos um milhão de oportunidades. Um milhão de cavalos encilhados passando no nosso caminho.
ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br
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